Ciclos

A vida é feita de ciclos que começam e terminam trazendo aprendizados e novas oportunidades. Neste texto, reflito sobre a importância de aceitar as mudanças e encontrar beleza em cada recomeço.

Ciclos e suas complexidades: quão maravilhoso é viver sua transformação e quão doloroso é se despedir para recomeçar…Vamos refletir sobre eles?


Ciclos:

ci.clo

substantivo

  1. espaço de tempo durante o qual ocorre e se completa, com regularidade, um fenômeno ou um fato, ou uma sequência de fenômenos ou fatos;"ciclo da vida"
  2. série de fenômenos, fatos ou ações de caráter periódico que partem de um ponto inicial e terminam com a recorrência deste;"o ciclo das estações"
  3. conjunto de fatos, ações, obras que se sucedem no tempo e evoluem, marcando uma diferença entre o estágio inicial e o estágio conclusivo;"o ciclo de formação do ser humano durante a gestação”

Quando o sentimento de mudanças chega…

Há um sentimento que me visita de tempos em tempos. Ele chega sem aviso, como um viajante silencioso que desembarca na estação do meu coração, carregando malas cheias de mudanças. Sua presença nunca é breve. Desembarca, se hospeda e se instala. Vem para passar longos períodos, cumprir sua missão e, só então, partir.

Esse sentimento, embora ainda sem nome, é conhecido por mim. Ele vem para transformar, trocar a mobília, tirar os excessos e abrir novos caminhos. Inicialmente, sua chegada causa desconforto. A bagunça interna é inevitável: emoções mudam, antigas satisfações perdem o sentido e a conexão social enfraquece. Mas logo percebo que essa é a sua forma de me empurrar para a renovação.

Sua chegada sinaliza que uma fase da minha vida se completa e é hora de iniciar um novo ciclo.

É preciso romper, desapegar e despedir.

A Vida em Ciclos

Nossa vida é composta por ciclos. Alguns são evidentes, como os anos escolares, as fases da juventude ou as transições profissionais. Outros, mais sutis, chegam sorrateiramente e mudam nossa forma de viver sem grandes anúncios.

Esses ciclos invisíveis são essenciais para nosso crescimento. Eles nos desafiam a lidar com a finitude, a desapegar e tomar decisões que nos mantenha em progresso. Não escolhemos quando começam ou terminam, mas sua presença é inegável e necessária.

Me refiro a ciclos de maturidade.

Cada ciclo que vivemos tem o propósito de gerar uma transformação em nós. Como vimos nas definições acima, os ciclos possuem as características de pegar um ser em estágio inicial, trabalhá-lo e evolui-lo, durante o processo, gerando uma transformação completa, dando fim ao ciclo.

Mas como isso se aplica a nós?

Viver um ciclo se refere a iniciar uma jornada com novas pessoas, locais e habilidades. Caminhar com eles, aprender sobre e com eles, desenvolver projetos ou mesmo participar de eventos. Nessa jornada, tudo é novo e proporciona aprendizado, aumentando a conexão.

Durante o caminho, realizamos conquistas materiais, adquirimos experiências e aumentamos nosso repertório cerebral. Até que atingimos o ápice do ciclo e temos nosso maior momento de satisfação e realização pessoal. Mas, após o ápice, a zona de crescimento se esgota e certas coisas passam a ser repetitivas e cômodas.

Se você é uma pessoa que busca o crescimento contínuo, sentir-se estagnado pode ser profundamente desconfortável. A mente anseia por desafios e mudanças que agreguem valor. Assim, quando percebemos que não há mais nada a explorar ao nosso redor, o inquilino da mudança chega, nos desconectando do ambiente já familiar e nos conduz para uma nova etapa.

Reconhecendo os Ciclos

Identificar que um ciclo está chegando ao fim exige introspecção. E podemos nos fazer algumas perguntas para nos ajudar a discernir:

  • Já alcancei todo o potencial deste momento ou lugar?
  • As pessoas ao meu redor ainda me inspiram e ensinam algo novo?
  • Sinto que estagnei ou que há espaço para crescer aqui?

Essas reflexões ajudam a perceber quando é hora de seguir em frente.

Despedindo-se de um Ciclo

Despedir-se de pessoas, lugares ou situações carrega uma complexidade que varia conforme o nosso grau de apego ou desapego. Um caminho que pratico é olhar para cada um deles com gratidão, reconhecendo o papel importante que desempenharam na minha jornada. Cada experiência, valor ou aprendizado proporcionado contribuiu para formar quem sou hoje e me trouxe até aqui. Foram peças essenciais no ciclo que vivi, agregando tudo o que tinham a oferecer.

No entanto, após absorver todo o aprendizado possível, chega o momento em que eles já não podem impulsionar meu crescimento. Cumpriram seu propósito na minha vida, e para continuar evoluindo, é necessário buscar novos ambientes, desafios e experiências que ampliem minhas perspectivas. Com esse olhar, despedir-se deixa de ser tão doloroso, pois vem acompanhado da certeza de que coisas maiores e melhores estão por vir, trazendo novas conexões, entusiasmo e satisfação em um ciclo renovado. É hora de desapegar!

Ações que costumo praticar para me despedir de um ciclo:

  1. Limpo os armários, vendo coisas, desentulho os cômodos. Tudo o que não puder ser vendido, é doado para quem vai fazer bom uso. O que um dia foi bênção para mim, está na hora de ser benção para outra pessoa;
  2. Reavalio minha rotina e hábitos. Atitudes que não condizem com a nova fase que desejo construir devem ser abandonadas e esquecidas. Certos lugares já não me cabem mais, deixo de frequentá-los;
  3. Reavalio minhas redes sociais: analiso os perfis que aparecem no meu feed e deixo de seguir todos aqueles que já não fazem sentido, não se alinham ao meu objetivo e começo a buscar novas referências para seguir;
  4. Libero as pessoas. Deixo-as ir. Relacionamentos vêm e vão, e isso faz parte da vida.

Eu sei, o último é a parte mais dolorosa. É difícil olhar para pessoas tão próximas e queridas, que estiveram ao meu lado por anos, e perceber que é necessário se afastar porque os caminhos que precisamos trilhar são diferentes.

Despedir-se nem sempre envolve um "adeus" explícito, dito em voz alta. Às vezes, é uma despedida lenta e discreta.

Nessa fase, muitas vezes surge o pensamento de estar sendo egoísta e estar desprezando pessoas queridas ao reduzir a frequência de encontros. Mas essa não é a verdade!

Mudar sua ambiência e fazer novos relacionamentos não é ser interesseiro e cruel. E também não significa descartar as pessoas antigas por não “serem uteis”. Essa é uma forma ignorante e tola de olhar para a situação.

A forma correta envolve gratidão e admiração! Admirar cada pessoa que fez parte da sua jornada por ser quem é, reconhecer como a autenticidade de cada um lhe foi importante e ser grata por ter tido a oportunidade de conhecê-los. Entender que cada um possui sua própria jornada e eu não posso fazer com que todos queiram seguir a minha, assim como não posso abrir mão do meu proposito para viver o caminho de outra pessoa.

Identificar e encerrar ciclos é parte do amadurecimento. Embora o desconhecido traga desconforto, ele também oferece oportunidades de crescimento e aprendizado. É nos espaços vazios que o inesperado floresce.

A Vida é Movimento

Os ciclos são como as estações: chegam, cumprem seu propósito e encerram. Abraçar essa transitoriedade é aceitar que a vida está em constante movimento. Cada fim é, na verdade, um recomeço. Cada vazio é uma oportunidade para algo maior.

Ao aprender a identificar e se despedir dos ciclos, abrimos espaço para uma existência mais plena e alinhada com nosso propósito.

E você, consegue identificar em qual fase do ciclo está vivendo agora?

Os ciclos são como as estações: chegam, cumprem seu propósito e encerram.

Kariny Camargo